28 de julho de 2008

Capítulo II

Amanhece no castelo real, a princesa Giullia já acordada em seu leito tem preguiça de se levantar... “Gostaria de dormir uma semana inteira.” Pensa ela, “Para o tempo passar logo!” Já se passaram 3 dias desde o encontro com o tocador de flautas.
Sua ama Naninha entra apressada no quarto,pensando nos mil afazeres que tem a cumprir em mais um dia de trabalho. Ela abre a cortina da janela do quarto em um movimento só, a luz entra o ofusca a visão de Giullia.

- Minha menina, o que fazes ainda deitada?

- Porque o tempo passa tão devagar Naninha?

- O tempo tem seu próprio ritmo, ele é senhor de nossas vidas, aprenda com ele a regular sua ansiedade.

- Deveríamos poder controlá-lo, isso sim!

- Amanhecestes hoje querendo brincar de Deus? Porque queres adiantar o tempo? Já sei, não podes esperar para conhecer seu noivo não é? Já lhe disse minha pequena, na hora certa seu pai irá escolher o rapaz mais valoroso de todos os reinos, tenha paciência.

A idéia de se casar sem amor nunca pareceu tão desconfortável como agora, pela primeira vez seu coração havia prestado atenção em algo fora do seu mundo, de repente seu destino de princesa pareceu absurdo e sem sentido. A princesa Giullia suspirou e respondeu...

-Não é isso Naninha, gostaria de ir ao bosque!

-Minha menina....! Você sabe que eu não gosto disso, acoberto suas fugas porque sei que não tem jeito, que querendo ou não seria impossível de impedir você de ir, desde pequena você sempre foi tão levada! Mas já não basta uma vez por semana?

- Queria que esta semana voasse!

A ama, que conhecia Giullia desde que nasceu, notou um brilho diferente em seu olhar... Definitivamente, tinha acontecido algo na última visita dela ao bosque.

-Giullia! O que aconteceu? Alguém lhe viu? Meu Deus! Alguém do reino lhe viu? Quantas vezes eu te avisei? Sabia que isso não ia dar certo! Aiaiaiaiaiai já vejo minha cabeça rolando no chão!

-Calma Naninha, ele é diferente! Não deve ser habitante da terra do SAG, ele toca flauta! Já ouviu falar de alguém neste reino que toca flauta? Nunca ouvi falar de ninguem com este habilidade por estas terras

- O tocador de flautas? Ele viu você???? Meu Deus, minha cabeça vai virar escoro de porta! Ele é um forasteiro no reino, ninguém sabe quem ele é ao certo! Anima festas com a flauta e dá conselhos aos camponeses, mas ninguém sabe nem o seu nome! Ele pode muito bem ser alguém perigoso, alguém que veio para raptar você! Ouw minha menina, prometa que não ira vê-lo novamente e reze para ele não contar a ninguém que você foi vista.

- Claro Ama, Farei o que você diz.
Era a primeira vez que a princesa mentia na vida.

Meia-noite na pensão do reino da terra do SAG, alguém bate a porta do misterioso tocador de flautas.

-Mestre? Posso entrar?

-Claro meu amigo. Responde o tocador.

- Porque não desces? Os habitantes sagianos estão em polvorosa a espera do tocador de flautas, as festas deste reino não têm mais graça sem sua música! Eles clamam por sua presença, as mulheres suspiram na sua ausência.

- Digam a eles que estou cansado, indisposto! Que agradeço o apreço, mas que hoje não irei descer.

- O que há mestre? Faz quatro dias que estas diferente, pensativo, algo de errado? Já pensas em abandonar este reino?

-Pelo contrário.... Aliás, este é o problema!

-Humm, pensando na princesinha novamente? Não acredito que ela é digna de tanta atenção sua, começo a querer conhecê-la! Quem sabe ela na precisa de um lacaio fiel? Bela do jeito que ela deve ser, teria o maior prazer em servi-la!

- Sem piadas Sávio....! Sabes que não devo me apaixonar!

-Porque não? Esta foi uma regra que você impôs a si mesmo, meu amigo Dannyel.

-Não deves me chamar pelo nome.....!

-Me chamaste primeiro! Foi inclusive um alivio, que nome pavoroso o mestre me arranjou! “Chico”, estas no mínimo de vingança por causa das minhas vitórias nos campeonatos de empinar pipa na nossa infância.

Neste momento o tocador de flautas sorriu. Não que chamar seu melhor amigo de “Chico” fosse uma vingança, mas porque a lembrança de sua infância era algo bem agradável. O fiel lacaio do tocador de flautas prosseguiu:

-E ai? Vamos descer? Tenho que aproveitar as belas donzelas que me cortejam por eu ser a única pessoa próxima do famoso tocador de flautas.

-Não meu amigo, realmente gostaria de ficar com meus pensamentos por hora...

-Certamente, “meu senhor”(não era fácil tratar o amigo de anos desta forma, mas era sua função e nenhum dos dois tinha culpa nisso).

- Divirta-se meu bom amigo.

- Dannyel...?!

-Sim?

- Se queres mesmo a princesa sabes o que fazer, sabes que tem um caminho bem mais fácil!

- Não meu nobre amigo.... Este caminho para mim não existe, não irei conquistar o que almejo na vida me valendo desta facilidade, por isso peço novamente que não me chames pelo nome, eu sou o tocador de flautas!

- Tsc tsc tsc, você sempre tão teimoso! - Boa noite meu fiel amigo!

- Vá! A festa te espera, vejo-te no alovorecer.

O lacaio fechou a porta e o tocador fechou os olhos, seus pensamentos foram de encontro aos da princesa, que neste momento estava em seu leito real, com insônia e pensando no rapaz flauta.
Amanhecia no bosque, o tocador de flautas já estava lá, sentado em sua pedra, brincando com a água do rio. Os primeiros raios de sol adentravam os espaços entre as arvores, o orvalho das folhas das plantas reluziam como ouro, um espetáculo que natureza faz todos os dias sem espectadores para assistir. O tocador de flautas envolto por todo aquele clima pensava na princesa que tinha mudado seu rumo, que tinha trazido algo que ele julgava que não sentiria novamente. A princesa costuma freqüentar o bosque quando o dia já está alto, pelas nove horas da manha, mas a ansiedade tinha trazido o tocador cedo ao ponto de encontro.
A princesa pulou da cama assim que o sol raiou, engoliu o desjejum e pelas 7h já estava pronta, não havia mais nada a fazer senão esperar. O seu pai sairia para fazer visitas reais às 8h e ela não poderia fugir com segurança antes disso. Foi o intervalo de tempo mais longo da sua vida, nunca 60 minutos foram tão demorados como estes, mas ela tinha que esperar, era prudente que ele saísse da forma mais sorrateira possível do castelo, uma vez que Naninha também agora estava contra suas saídas. Esperou o momento certo e saiu, de encontro ao mistério que havia corroído sua semana.
A princesa Giullia avistou o tocador de flautas ao longe, brincando com o córrego... Ela parou e fitou seu semblante, ainda não tinha olhado para ele com calma ... Achou ele bem engraçado! Uma mistura de seriedade e falta de jeito, uma mistura de palhaço com professor... Certamente algo totalmente diferente do que ela esta acostumada a ver.
Ela se aproximou devagar, curtindo a sensação de paz que aquele rapaz desconhecido lhe proporcionava. Ao notar a chegada da princesa, o tocador de flautas sorriu, olhou para ela e disse:

- Você é realmente pontual...!

- Nem sempre...!

- Somente para o que lhe interessa?

A princesa corou.

- O que te faz pensar que você me interessa?

-Porque você ainda não me disse que não interessa. Não te interesso?

- Não sei... Na nossa última conversa você insinuou que era o dono das respostas! Então? Não sabes?

-Errado. Eu possuo as chaves para as suas respostas, mas nao sou o dono delas, elas estao ai dentro de você.

-Sério? Ainda nao imagino como sabes tanto de mim

- O que te faz feliz princesa Giullia?

- Eu sou feliz naturalmente...!

- Todos temos algo que nos faz feliz...!

- Humm, deixe me ver, este bosque me faz feliz!

- Não é o bosque, é a sensação de liberdade que te faz feliz, de ser somente Giullia, sem o peso do cargo de princesa da terra do SAG.

- Adoro ser princesa!

- Tudo o que somos tem seu doce e seu amargo, aqui no bosque você encontra forças para ser o que é sendo o que não é.

A princesa franziu a testa, o tocador sorriu e completou:

- Você entendeu?

-Mais ou menos...!

-Você veio aqui em busca das tais chaves do seu coraçao não é mesmo?

A princesa consentiu com a cabeça.

-Poderias me dar a tua mão?

A princesa hesitou.

-Alteza, podes confiar em mim!
Giullia estendeu-lhe a mão direita. O tocador de flautas carinhosamente acolheu-a, toca-la proporcionou uma sensação estranha, uma vontade de correr e de ficar ao mesmo tempo, era como tocar a lua, era como descobrir a matéria dos sonhos.

-Realmente tens mãos de princesa....

- O que queres com minha mão?

- Adentrar a sua alma, despir seu coração...

A princesa novamente franziu a testa. O tocador de flautas sorriu mais uma vez.

- Nas minhas andanças pelo Oriente aprendi a magia milenar da quiromancia, esta magia da o poder de ler a vida das pessoas através das linhas da palma da mão.
Giullia discretamente riu de tal absurdo, como alguém pode saber da vida de alguem através da analise da palma da mão? No entanto, ela deixou que o tocador prosseguisse. O tocador mudou de expressão, concentrou-se ao olhar para mão da princesa.

-Para um membro da realeza, tens uma mão deveras interessante.

-Porque?

-Seu destino ainda não foi traçado...! Ele depende apenas de suas escolhas.

-Acaso o destino de todos não é assim?

-Não. Não se pode negar o poder que cada um tem diante da sua história, porém você não é alguém de escolhas ou de destino previsível, a linha da sabedoria, a linha do amor e a linha da vida brilham em seu caminho, mas a linha do destino é fraca e essa fraqueza faz de você alguém muito poderosa.

-Como uma fraqueza pode fazer alguém poderoso?

-Todas as nossas fraquezas nos fazem poderosos, um tropeço ensina mais do que um progresso... Somos a soma dos aprendizados que temos na vida e quase todas as lições que obtemos são provenientes de nossos defeitos. Mas este não é o tipo de fraqueza que me refiro, refiro-me a falta de força da sua linha do destino, sua vida é um riacho calmo, não uma forte correnteza. Quem vai determinar aonde este rio irá desaguar é você.

A princesa sorriu....

-Quer dizer que vim aqui atrás das respostas da minha alma e tu me dizes que só eu as sei? Ou melhor, que elas só dependem de mim?

-Exatamente! Mas isso não significa que eu não possa lhe ajuda, precisas de mim mais do que muitos que já têm o destino traçado, você precisa de alguém que te oriente, pois sua vida pode e será uma grande aventura.

O tocador de flautas pegou a mão da princesa Giullia e beijou-a.

-Tive a ousadia de dizer que conhecia a beleza até encontrar-te, que simplicidade a minha... Ainda não conhecia o que era a belo de fato.

-Tivestes a ousadia de beijar a mão de uma princesa, isto é um pecado para um plebeu em muitos reinos.

-Deixe-me então limpar o pecado dos meus lábios nos teus. A boca de uma princesa não como a boca de um anjo?

-Dessa forma não estarias transmitindo o teu pecado para meus lábios?

-Não, desta forma estarei indo de encontro a minha penitência por pecar.

O tocador de flautas beija a princesa, ela reluta no inicio mais se entrega ao beijo. Olhando nos olhos dela ele prossegue:

-Apartir de agora pago minha penitência, virei cativo da tua presença. Porém, se meu castigo é te amar, castigo-me então mil vezes.

- Sou para ti então um carrasco? Te ceifei a liberdade?

-Ès para mim a salvação. Liberdade é prender-se ao que se sonha e eu te sonhei desde o inicio dos tempos. Amava-te antes mesmo de te conhecer, por mais loucas que estas palavras sejam. Te sonhei para mim, assim como o sabiá sonha as asas para voar.

A princesa então beija o tocador e diz:

-Não sei do tempo nem do que sinto, mas confio em você. Ajudas-me então com meu destino?

-Nasci para isto, princesa.

Eles então trocaram um longo beijo e passaram um bom tempo se olhando, pois os corpos se entendem com palavras, mas as almas se entendem com olhares.

-Preciso ir meu tocador, o dia avança rápido.

-Estarei aqui te esperando para o próximo encontro...

-Estarei ansiosa para ver-te novamente...!

A princesa se despede e anda alguns passos, para e volta.

-Espera! Ainda não sei teu nome!

- Engraçado princesa, tem algo em seu cabelo, perto da sua orelha! A princesa colocou a mão no pescoço e nada sentiu.

-Deixe-me tirar para você.

Como um passe de mágica o tocador de flautas fez aparecer uma rosa em suas mãos, na rosa estava preso um pequeno pergaminho. O tocador de flautas entregou a rosa a princesa, fez a reverência real e foi embora, sem dizer mais nada. A princesa abriu cuidadosamente o pergaminho, nele estava escrito:

“Os lábios que ainda não havia beijado,

A pele que ainda não havia tocado,

Os olhos que frente a frente, ainda não havia fitado.

As palavras que com carinho ainda não havia escutado.

As angustias que com doçura ainda não havia acalmado.

De tudo isso um pouco, em sonho experimentei

Envolto de esperanças, castelos levantei...

O tempo me fez achar que vivia em vão,

Desacreditado,derrubei as paredes da ilusão....

Não tinha te encontrado até então.

No entanto, sem querer te encontrei,

Nos teus olhos, meus antigos sonhos visualisei,

Nos teus braços acredito ter encontrado,

Meu sonho realizado...!"

De seu tocador de Flautas,

Dannyel

A princesa sorriu, guardou o pergaminho junto ao coração e iniciou o caminho de volta ao castelo.

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